Danilo e Pâmela aproveitaram a crise para abrir livraria e bistrô. (Foto: Divulgação)

A crise econômica que atinge o Brasil tem dado combustível para o nascimento de novos empreendimentos. Ao mesmo tempo em que a dificuldade financeira faz com que empresários fechem as portas, o desemprego leva uma outra parcela da população – a da carteira assinada – a buscar rendimentos no próprio negócio. De cada 10 brasileiros adultos, quatro já possuem ou estão envolvidos com a criação de uma empresa, na maior taxa de empreendedorismo já registrada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Em Mogi das Cruzes, há quem tirou da crise a oportunidade para investir e crescer.

Em meados do ano passado, o coordenador de telecomunicações Danilo Albino da Silva, de 37 anos, ficou desempregado pela primeira vez desde que começara a trabalhar, ainda na adolescência. A segurança do salário garantido no final do mês já não existia mais e, em meio à crise, conseguir um emprego que assegurasse o mesmo padrão de vida não seria fácil.

Morando em Mogi das Cruzes e trabalhando na Capital, abrir uma loja na Cidade tinha se tornado um sonho antigo, pela proximidade de casa e pela possibilidade de trabalhar com a mulher, formada em marketing, Pamela Borges, de 34 anos. “A gente já vinha amadurecendo a ideia de abrir um negócio em Mogi. Começamos a participar de alguns cursos do Sebrae e, quando fiquei desempregado, vimos a oportunidade de concretizar o sonho”, revela Danilo, que em novembro abriu a livraria cristã e bistrô Kadosh, na Rua Victório Partênio, no Socorro.

Pâmela conta que o casal pesquisou bastante antes de encarar a abertura de uma livraria e de um restaurante, no mesmo local. Mas foi a crise quem deu um empurrão. “O mercado para alimentação não chegou a cair. Além disso, a venda de artigos relacionados à fé aumenta em tempos difíceis. E o conceito da loja é totalmente novo em Mogi”, explica ela, destacando que ainda contou com a “ajuda divina”.

Dono de uma das principais hamburguerias de Mogi das Cruzes, o Pit’s Burger, Felipe Sato, de 23 anos, também encontrou na crise motivos para continuar investindo no setor. Ele inaugurou ontem o Panachê GastroBar, na Rua Capitão Manoel Rudge e, na quarta-feira, abriu a terceira unidade da lanchonete, desta vez em Suzano – a segunda começou a funcionar em Ribeirão Preto. “As pessoas reduzem o consumo, mas não deixam de comer. Como temos um preço acessível, não sofremos no ano passado na hamburgueria. Além disso, o momento é bom para investir, porque a gente consegue negociar melhor os valores com fornecedores”, ressalta.

A ideia do GastroBar, também uma novidade em Mogi, começou a surgir recentemente em São Paulo, conforme destaca Felipe. “Conceitualmente, é um local com comida de restaurante e preço de bar”, explica. Uma boa parte do cardápio é formada por pratos para compartilhar, com porções mais elaboradas, como batata brava e bolinho de linguiça.

A crise não ofuscou também a oportunidade de mercado que empreendedores enxergaram em um segmento ainda pouco explorado na Região: uma clínica especializada em vacinas. O investimento veio depois de um detalhado estudo por parte dos sócios-proprietários, que atuam em áreas ligadas à saúde, o que ajudou a identificar a “lacuna” existente.

“Algumas regiões, como a Capital e Campinas, por exemplo, já contam algum tempo com clínicas especializadas em vacinas instaladas em ambientes que fogem um pouco do tradicional na área de saúde, como centro de compras, e que funcionam com bons resultados. Nós identificamos esse potencial aqui em Mogi porque é uma cidade grande, referência numa região onde vivem milhares de pessoas e que estão cada vez mais preocupadas com a saúde”, ressalta Márcio Prado Junior, um dos sócios-proprietários da VacineJá.

A clínica foi inaugurada em outubro passado e, além do atendimento especializado em vacinas, aposta em outros diferenciais, como a localização – está no centro de compras do Comvem Patteo Mogilar, o que apaga aquela impressão fria comum aos ambientes de saúde -, e em serviços inovadores, como o disque-vacina.

Bom planejamento evita prejuízos
De cada 10 empresas abertas no Brasil, seis fecham antes de cinco anos de atividades. Para não cair em armadilhas e evitar prejuízos, um bom planejamento é fundamental a quem pretende investir, conforme alerta a analista de negócios Roseli Lima Bezerra, da unidade mogiana do Sebrae.

Roseli destaca que a taxa de empreendedorismo brasileiro aumentou consideravelmente durante a crise como resposta ao crescente desemprego. “Existe um aumento no número de pessoas interessadas em empreender, mas por necessidade. Muitos foram demitidos do antigo emprego e estão procurando um caminho para seguir”, pondera.

Em 2015, de cada 10 empreendimentos, quatro foram abertos por necessidade. Em 2014, eram três. Segmentos como beleza e alimentação estão entre os que menos sofreram durante a crise. “Mas todo tipo de negócio pode dar certo, desde que os devidos cuidados sejam tomados”, avalia. Ter um diferencial, entender o público-alvo e pensar na divulgação formam a base para o sucesso.

“Muita gente pega o dinheiro da rescisão e investe tudo na abertura de uma empresa. É um erro, porque é preciso ter, pelo menos, um ano de capital de giro para que o negócio possa começar a engrenar no mercado”, alerta a especialista.

O próprio Sebrae possui uma ferramenta online (www.sebrae.com.br) que auxilia o potencial empreendedor a descobrir quanto ele precisa reter para garantir a sobrevivência do negócio nos primeiros meses de atividades.

Para Roseli, a situação econômica do Brasil não deve piorar – mas o fim da crise ainda é incerto. “A gente percebe uma pequena melhora, mas bem pequena ainda”, avalia. Por isso, o momento ainda pede cautela, mas já permite uma cerca dose de criatividade. “É na crise que boas oportunidades aparecem. Desde que os cuidados sejam tomados, é um ótimo momento para se manter ou entrar no mercado”, ressalta. Ela dá como exemplo o caso de uma indústria de autopeças da Região que passou sufoco durante a baixa das montadoras, mas que conseguiu sobreviver ampliando o mercado e vendendo para clientes menores.

Jovens se destacam no mercado

O perfil mais jovem dos empreendedores faz da crise um campo fértil para os novos negócios. Setores como alimentação, saúde, educação e tecnologia se destacam entre os de maior potencial, com demanda crescente. “Se está atrelado a diferenciais, como comodidade, bom atendimento e outros aspectos que o diferenciem da concorrência, as chances de sucesso são ainda maiores”, avalia o presidente interino da Associação Comercial de Mogi das Cruzes (ACMC), Marco Zatsuga.

O jovem empreendedor no Brasil tem idade entre 26 e 30 anos, é do sexo masculino, tem ensino superior completo, é microempresário, com apenas uma empresa no nome e faturamento anual de R$ 60 mil a R$ 360 mil, além de vontade de investir em um novo segmento de negócio, segundo mostra pesquisa da Confederação Nacional dos Jovens Empreendedores (Conaje).

Zatsuga destaca que a participação das mulheres também tem crescido. “Cabe destacar que um grande diferencial dos novos investidores do comércio é o perfil mais tecnológico, que ajuda muito a descobrir onde estão os ‘espaços vazios’ no mercado para chegar até o consumidor”, complementa.

Para Zatsuga, não é possível dizer, ainda, que a crise passou, pois os reflexos dela ainda são muito acentuados no consumo. Com o grande universo de desempregados, permanece em baixa a demanda por produtos e serviços. Mas as pessoas começam a demonstrar maior confiança em relação ao futuro e os indicadores apontam uma tendência de desaceleração na queda das vendas no varejo, resultado principalmente da redução dos juros e da inflação.

“Mas como em todos os demais setores, no comércio também há segmentos que têm passado bem pela crise e até estimulado novos investimentos. Muitas pessoas que perderam o emprego, por exemplo, acabam encontrando uma saída investindo num negócio próprio, ainda que os resultados demorem um pouco mais para aparecer. É por isso que durante os últimos meses, ao mesmo tempo que muitos comércios fecharam, outros abriram as portas. Uma questão de oportunidade e, principalmente, de bom planejamento, estudo de mercado e pé no chão”, relata.

O presidente da ACMC fala que Mogi das Cruzes é uma cidade que se destaca no desenvolvimento empresarial e desperta o interesse por investimentos “porque tem um grande potencial consumidor e uma economia muito diversificada, além dos aspectos estruturais e educacionais favoráveis”.

Mãe, filho e mulher tocam restaurante

ELIANE JOSÉ
De uma barraca na feira noturna de quinta-feira, o casal Qadis Abutaha e Rosane Leão Costa migrou para um restaurante aberto três meses atrás, na pequena vila de Luís Carlos, em Guararema. Em meados do ano passado, os dois sentiram a queda no movimento da barraca de comida árabe e passaram a procurar um imóvel para aluguel em Mogi. O preço era proibitivo – R$ 5 mil mensais, na maioria dos pontos. Quase ao mesmo tempo, eles começaram a oferecer pratos árabes a amigos para driblar a queda nas vendas na feira. E viram nesse nicho uma chance de trabalho. Há alguns meses, uma visita a um dos casarios antigos do distrito conhecido por receber as viagens da Maria Fumaça selou o início desse projeto.

Al Mahata (A Estação) é o nome do restaurante que abre de quarta-feira a domingo. Na cozinha, na limpeza, no atendimento das mesas e no comando da casa estão Kalled, como os brasileiros passaram a chamar o árabe nascido em Bagdá, a mãe dele, Donya, e a mulher Rosane, ex-funcionária da Câmara de Mogi das Cruzes. O trio aposta na superação da crise econômica. “As pessoas gostam de variar, comer um prato diferente, e o turismo em Luis Carlos está bom”, diz ele, num português arrastado. Com os proprietários do imóvel alugado, Marco e Maureen, eles contam ter uma dívida impagável: “Eles reformaram o lugar, nos ajudaram muito”.

Kalled integra o grupo de 108 imigrantes palestinos que chegaram a Mogi das Cruzes em 2007. Tinha 26 anos, morava num campo de refugiados, com a família sunita se viu sem perspectivas quando o governo xiita assumiu o Iraque e aderiu ao Programa de Reassentamento Solidário, da Acnur (Agência da ONU para Refugiados).

O pai dele, Kalled Said, faleceu em 2010. Os irmãos Ari, que se destacou como jogador de futebol, e Omar residem agora em Rondônia e no Paraná. Ele permaneceu na Cidade, com a mãe. Fez de um tudo, até vender produtos nos trens entre Mogi das Cruzes e São Paulo.

Logo após conhecer Rosane, o casal conquistou uma vaga na feira noturna. Ela fazia doces. A mãe dele, comida árabe. Os cardápios se uniram. Durante um tempo, funcionou bem. Mas as vendas refrearam com a abertura da segunda feira noturna, no Mogilar. Daí, diz ele, hoje com 36 anos: “Começamos a oferecer os pratos a amigos e dizíamos que estávamos vendendo por encomenda. Mas, não tínhamos nenhum pedido, era para fazer propaganda”. Ambos apostam no trabalho e nas atrações de Luis Carlos, muito frequentado por turistas da Capital.

“Trabalhamos mesmo. Fazemos praticamente tudo sozinhos, das compras, limpeza à comida. E no final de semana, contratamos pessoas para nos auxiliar”, afirma ela. Aos domingos, viram público e passaram a servir café da manhã. “É preciso correr atrás”, aprendeu Kalled.

Texto: Danilo Sans e Eliane José – Jornal O Diário